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Les aurores montréales.

“Les aurores montréales. Son livre s’appellera Les aurores montréales, parce que Montréal est une ville qui n’arrête pas de changer, est une ville qui additionne tellement les nouveaux visages que l’on perd toujours celui que l’on croyait enfin connaître.” – Monique Proulx

Uma das melhores coisas que fiz, enquanto o Rafael estava no Canadá e eu aqui esperando minha hora de ir passear também, em dezembro, foi ler esse livro. Para começo de conversa digo logo que a Proulx não é o meu estilo de escritora favorita. Eu costumo preferir, hmmm, escritores que já morreram há um tempinho. Sabe como é, se um livro tem cem anos de idade e ainda está aí, firme, forte e nos dizendo coisas interessantes apesar da distância temporal que nos separa, é sinal de que ele sobrepujou o tempo e que talvez essa tal ‘distância temporal’ não precise ser levada em conta.

Porém, o Les aurores montréales é perfeito para quem está indo à cidade pela primeira vez e quer ‘entrar no clima’. O livro, escrito na década de noventa, é composto de contos curtos e possui um vocabulário relativamente fácil, gostoso de ler. É o tipo de livro que flui, o que é ótimo quando o leitor não domina totalmente a língua na qual o livro está escrito.

Nesse livro a Proulx quis fazer um retrato da cidade, mostrando de perto pedaços de vidas das pessoas que a compõem. Eu gostei bastante do resultado, pois ela faz um esforço incrível para retratar o maior número de situações possíveis. E muitas dessas situações contadas são protagonizadas por imigrantes e suas visões de mundo.

O bom é que ela não fica batendo numa tecla só, tem de tudo no livro. Podemos ler a carta de uma jovem chinesa à avó, que conta como é visitar a Canadian Tire para ilustrar o que é viver no Canadá; a história de um professor universitário que ao dar esmola a um Clochard liga-se irremediavelmente a ele; podemos ler sobre um garoto de dezesseis anos que sonha em escrever literatura para afirmar a soberania francófona na região de Montréal; um haitiano falando sobre o racismo; um rico de Westmount que resolve aumentar o salário de sua faxineira depois de perceber como é feio o casaco amarelo que ela usa. E também podemos ler sobre o que as pessoas fazem em sua luta diária contra o tédio, em suas questões existenciais.

Para quem se interessar, fica a referência:

PROULX, Monique. Les aurores montréales. Montréal: Les Éditions du Boreal, 1996.

Jeans, músicas de natal, e o capitalismo aqui e lá.

O post da Lídia foi desses que me deixaram coçando, en grattant, pra escrever alguma coisa. O que segue aí abaixo na verdade é um comentário do post, mas que acabou crescendo tanto que resolvi adaptar e transformar logo em post no blog.

Primeiro, não posso deixar de fazer um comentário sobre a questão natalina. Isso de não poder entrar em um café aleatório que fosse sem ouvir não só a mesma música mas a mesma coletânea de músicas de natal, passando por John Lennon, Frank Sinatra e uma tal de ram-pam-pam-pam, foi um pouco demais – o engraçado é que todas elas são anglófonas. Música francófona no Québec, só consegui ouvir do dia 26 em diante.

Por outro lado: a vantagem do Québec é que depois que acaba o natal, você se livra das músicas natalinas e volta a poder viver e frequentar cafés e bares em condições, hm… de acordo com os direitos humanos, digamos assim. No Brasil, quando vc se livra da primeira praga, descobre que isso é só um aquecimento para a segunda praga: as músicas de carnaval! E aí então, não é só um mês, mas dois. Não é só música, mas imagens, reportagens, especiais, horas de programação televisiva e internética. E não é uma questão de ouvi-las em shoppings ou cafés, mas todo lugar, já que o alcance dos carros de som não tem limites.

Sobre o consumo, é um papo que eu e a Lídia temos tido ultimamente, e a Lídia resolveu por no papel, ou no caso, no blog (em ótimo post por sinal, querida ;-) ). O curioso é que o Canadá ainda é um dos países que mais poluem no mundo, e que mais desrespeitaram o protocolo de Kyoto.

Em um dos comentários no post da Lídia, o Gato de Cheshire falou sobre um anúncio bizarro de incitação ao consumismo que ele viu no Québec, e acabei me lembrando de outro que eu e a Lídia vimos também em Montréal, de venda de jeans. O slogan é  basicamente “be stupid”. Lembro que ficamos eu e a Lídia algum tempo olhando, tentando acreditar que na realidade se tratava de alguma campanha pública contra o consumismo. No fim das contas, a dura realidade. Era de fato uma propaganda de jeans. Da Diesel.

O que me assusta na América do Norte, em comparação com o Brasil, é a franqueza com a qual o consumismo tem passado a atuar. Já não há mais tanta necessidade de disfarçar o consumismo e suas ambiguidades. O próprio consumismo já é vendido como ideologia e como marca de jeans. É estúpido, mas a estupidez também é vendida como ideologia e até grife. Provavelmente, com um jeans feito de latas de sopa campbells recicladas, mas e daí?

Não sei se gosto disso como uma forma de “se é para fazer, vamos admitir”, ou se acho isso problemático porque acaba alguma culpa que ainda existia e que talvez servisse de motor para algo. Boa pergunta. Mas quem se importa. “Smart may have the answers, but stupid has all interesting questions”, já diria a Diesel.

Aliás, em Ville de Québec encontra-se uma loja, no centro histórico, chamada Fuck la Mode. Repleta de roupas com a grife. Não podia deixar de lembrar.

Ps.: Pensei em colocar uma imagem da campanha da Diesel para ilustrar o post mas achei que não deveria macular nosso querido blog com esse tipo de profanação. Quem quiser, pode procurar no Google, “be stupid”, não tem erro.

músicas natalinas e volta a poder viver e frequentar cafés e bares em

condições, hm… de acordo com os direitos humanos, digamos assim. No

Brasil, quando vc se livra da primeira praga, descobre que isso é só um

aquecimento para a segunda praga: as músicas de carnaval! E aí então, não é

só um mês, mas dois. Não é só música, mas imagens, reportagens, especiais,

horas de programação televisiva e internética. E não é uma questão de ouvi-

las em shoppings ou cafés, mas todo lugar, já que o alcance dos carros de

som não tem limites.

Sobre o consumo, é um papo que eu e a Lídia temos tido ultimamente, e a

Lídia resolveu por no papel, ou no caso, no blog (em ótimo post por sinal,

querida ;-) ). O curioso é que o Canadá ainda é um dos países que mais

poluem no mundo, e que mais desrespeitaram o protocolo de Kyoto.

Gato, falando em anúncios, vc deve ter visto já algumas vezes um aí em

Montréal de venda de jeans. O slogan é “be stupid”. Lembro que ficamos eu e

a Lídia algum tempo tentando acreditar que na realidade se tratava de alguma

campanha pública contra o consumismo. No fim das contas, a dura realidade.

Era de fato uma propaganda de jeans (c’est à dire, du jeans de diesel).

O que me assusta na América do Norte, em comparação com o Brasil, é a

franqueza com a qual o consumismo tem passado a atuar. Já não há mais tanta

necessidade de disfarçar o consumismo e suas ambiguidades. O próprio

consumismo já é vendido como ideologia e como marca de jeans. É estúpido,

mas a estupidez também é vendida como ideologia e até grife. Provavelmente,

com um jeans feito de latas de sopa campbells recicladas, mas e daí?

Não sei se gosto disso como uma forma de “se é para fazer, vamos admitir”,

ou se acho isso problemático porque acaba alguma culpa que ainda existia e

que talvez servisse de motor para algo. Boa pergunta. Mas quem se importa.

“Smart may have the answers, but stupid has all interesting questions”, já

diria a Diesel.

Aliás, em Ville de Québec encontra-se uma loja, no centro histórico, chamada

Fuck la Mode. Repleta de roupas com a grife. Não podia deixar de lembrar.

J’ achète donc je suis.

Uma das poucas coisas que me irritou no período em que estive em Montréal, foi a tara que as pessoas tem por musiquinhas natalinas. Sim, aqui no Brasil costumam tocar pelos shoppings a fora a versão nojentinha da Simone (e outros) da música de natal do John Lennon, para nos lembrar esquizofrenicamente: “Então é natal… Então é natal… Então é natal…”, com se fosse possível não notar.

Mas como eu fujo de shoppings como o diabo da cruz, é relativamente fácil sair disso. Em Montréal, não. Não teve um lugar no qual eu entrasse que estivesse tocando outra coisa além de musiquinhas natalinas chatas e ainda por cima vendendo o CD para quem quisesse levar pra casa aquela chatice! Todas as lojas da cidade, hotéis, albergues, bares, até os cafés, enchiam meus ouvidos, todas as atrações turísticas, até o metrô! Todos faziam questão de me lembrar que era Natal, logo, hora de consumir! Hora das promoções!

O que não deixa de ser uma contradição bizarra, que salta a qualquer olhar minimamente crítico.

Todo mundo já ouviu falar do tal Boxing Day, que pelo que pude perceber é na verdade a Boxing Week, período pós-natal onde as lojas cortam seus preços pela metade para incentivar as pessoas a comprarem ao máximo, mesmo elas já tendo comprado mais que o necessário, pois era Natal! Natal! Natal!

E todo mundo também já ouviu falar em como a coleta seletiva do lixo é incentivada no Canadá. Aliás, incentivada, não. Obrigatória! Confesso que, no príncípio, meio matuta brasiliense que sou, estranhei um pouco a neura das pessoas em separar milimetricamente seu lixo, ter quatro tipos diferentes de lixeira em casa, lavar os frascos com água quente e o escambau.

Mas péra aí! De que adianta você se preocupar tanto com o meio ambiente a ponto de lavar lacre de frasco de suco antes de jogá-lo na Lixeira para Lacres de Frasco de Suco e consumir tanto – porque é Natal! – a ponto dos seus sacos de lixo sairem da sua casa quase do seu tamanho? De que adianta essa neura em separar o lixo, em comprar alimentos orgânicos – que são muito ofertados nas mercados e feiras por lá – e ao mesmo tempo consumir muito mais do que você precisa para viver uma vida confortável?

Aqui no Brasil, para fazer as pessoas consumirem coisas das quais elas não precisam, nós temos o décimos terceiro. Lá no Canadá eles tem a Boxing Week. Lógico que o Capitalismo, esperto como ele é, já se apoderou da lógica “eco” e agora faz as pessoas saírem para comprar objetos supérfluos, mas “ecológicos”. Continua sendo inútil, continua sendo exagero, continua sendo mais do que um único ser humano pode usar. Mas agora a “roupicha” é feita com fibra de garrafa PET, olha que legal! E a sandália usa pneu velho! Afff…

Sinceramente, eu não acredito ser possível pensar um mundo ecologicamente correto enquanto não mudarmos – pelo menos um pouquinho que seja – a lógica de consumo humana. Enquanto continuar sendo uma hábito ter duas peças de roupa para cada dia do mês e cinco pares de sapatos para cada semana, não vejo solução para um Planeta mais saudável. Seja aqui, no Canadá ou na Escandinávia.

Sensações

Toronto foi a minha porta de entrada para o Canadá, o lugar que me permitiu sentir o gostinho do país pela primeira vez. Como estou aqui há pouquíssimo tempo, só posso falar através das minhas impressões. Meu corpo é todo sensações desde que saí de casa no Brasil. Virei uma criança recém-nascida absorvendo tudo ao redor de mim com uma voracidade que eu gostaria imensamente que fosse incansável.

Meu vôo foi extremamente tranquilo, sem nenhuma turbulência, mas ninguém me avisou que seria tão insuportável. Sempre leio relatos nos blogs de pessoas que viajaram e ninguém comenta como as poltronas são estreitas e não reclinam. Será que só eu viajo de classe econômica? Sério, gente, foi uma tortura chinesa passar todo aquele tempo espremida no avião assistindo minhas mãos incharem… :P

Essa viagem-sensação começou pelo medinho: meu receio de voar, meu receio do carinha da imigração que ficou me fazendo perguntas em inglês (e eu só entendendo a metade delas!) e pedindo para ver minha passagem de volta, meu receio de ter perdido a minha mala que foi uma das últimas a chegar…

Depois pude ser confortada no abraço do Rafa e finalmente sair para o estacionamento e sentir o friozinho de menos 4 graus no meu rosto. Adorei! ^^

Toronto é uma cidade muito interessante, metrópole demais para o meu gosto, mas ainda assim muito interessante. Não poderia deixar de ser, a maior cidade do Candá… Eu tive pouco tempo para olhá-la e olhei sempre com olhos famintos, com aquele olhar que quer captar o maior número de coisas possível, mas que sabe que esse olhar rápido não vê quase nada…

Meu corpo reagiu ao frio do jeitinho que eu esperava: nariz entupido e dorzinha de cabeça. Como eu já previa isso, a farmácia veio comigo para salvar a viagem: meu sistema respiratório é a minha parte mais frágil!

Depois as minhas pernas estranharam: eu caminhei muito, eu queria pisar no maior número de ruas possível, embora só tivesse tempo para ver os inconturnables. Em Montréal vou controlar melhor a minha sede de rua, não adianta nada me cansar ao máximo e depois ficar tão exausta que não tenho forças nem para postar no Blog…

Comprei roupas de frio, comi comida asiática, tomei café ruim na Starbucks, ouvi trocentos idiomas no metrô, curti os cuidados da sogra, jantei na casa de amigos, visitei lojas enormes de bugingangas, comprei uma lata de Pringles gigante por $1,99, tirei mais fotos do que tenho espaço para guardar, taquei bolinhas de neve no Rafa, perdi um botão do casaco no museu, enfrentei ventos fortíssimos no topo da CN Tower, passeei por ruas lindas, conversei com uma bibliotecária, me admirei com a beleza dos vegetais nos mercados, me impressionei com tudo.

Enfim, tive a impressão de ter passado por Toronto!

 

Feeling good

É hoje! Depois de tanta ansiedade, finalmente embarco hoje a noite para conhecer um pouquinho da atmosfera desse lugar que pretendo chamar de casa um dia. Serão poucos dias e tenho consciência de que não dá para conhecer “de verdade” um lugar só passando rapidamente por ele. Mas eu não teria coragem de me mudar para uma cidade onde nunca pus os pés na vida, tenho que ir lá conferir. Além disso, eu nunca vi neve na vida e quero tirar a prova para saber se realmente gosto do frio…

Estou muito feliz com essa viagem e também por saber que vou ficar um pouco mais de duas semanas longe do meu emprego público entendiante como só os serviços públicos brasilienses sabem ser… Estou escutando uma música da Nina Simone  chamada “Feeling Good”, onde ela canta justamente essa sensação maravilhosa que é a liberdade. Trilha sonora perfeita para o que estou sentindo agora:

Feeling Good

Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Breeze driftin’ on by you know how I feel

(refrain:)x2
It’s a new dawn
It’s a new day
It’s a new life
For me
And I’m feeling good

Fish in the sea you know how I feel
River running free you know how I feel
Blossom on the tree you know how I feel

(refrain)

Dragonfly out in the sun you know what I mean, don’t you know
Butterflies all havin’ fun you know what I mean
Sleep in peace when day is done
That’s what I mean

And this old world is a new world
And a bold world
For me

Stars when you shine you know how I feel
Scent of the pine you know how I feel
Oh freedom is mine
And I know how I feel

 

Toronto.

Cheguei pelo sábado de manhã, nas seis horas da manhã que acolhem todo brasileiro que chega em Toronto. Na imigração, as perguntas básicas de sempre, por que estou vindo, para onde vou, por quanto tempo. Subitamente, a senhora que até então olhava distraidamente as folhas do meu passaporte levanta a sobrancelha. Me pergunta com ar inquieto. “O que você foi fazer no Peru????”. Não senhora, não fui traficar. Era só um congresso. Ela me libera e encontro minha mãe.

Minhas chegadas em Toronto são sempre ao nascer do sol. Entro no carro ainda de noite, chego na casa da minha mãe já com o sol se erguendo. Isso que é rápido, coisa de quinze minutos.

Foi a primeira vez que cheguei no começo de dezembro. Sempre chego mais próximo do natal, já com as ruas cobertas de neve. Dessa vez vi as ruas ainda limpas. Pensei que seria interessante caminhar pela primeira vez pelo High Park podendo ver o verde ou o amarelado ou o alaranjado do seu gramado. Não deu tempo. Deixei para o outro dia. No outro dia, nevou.

Meus dias tem sido de levantar de manhã cedo, e tomar café da manhã. Parece banal, mas fico ansioso pelo café da manhã quando estou em Toronto. Parece que tudo é melhor. Desta feita, ainda descobri um cereal diferente, com aveia e amêndoas. Durmo pensando nisso. Depois de um pouco de internet, resolvo ir para algum lugar. Qualquer lugar.

Já conheço bem a cidade, então meu desafio agora tem sido inventar lugares novos. Ou voltar aos velhos que tanto sinto falta. Como o restaurante Acropolis na Greektown, onde a cada dois anos encontro a senhora grega de sempre, que me vende a baklava de sempre. Ou as inevitáveis paradas nos cafés da cidade. Dessa vez descobri que já não gosto mais do café do Tim Horton’s. As coisas mudam em dois anos.

Hoje talvez eu volte no bairro chinês e compre as mesmas calças que comprei há dois anos. E que já estragaram depois de um ano e pouco. Imagino que a loja ainda está lá, com o mesmo cesto de calças, no mesmo canto da loja. Ontem pensem em ir em um jazz e não fui. Devo ir hoje.

Pela manhã, ainda é difícil decidir o que fazer. Aqui, tenho vontade de sair tanto quanto de ficar em casa. Olhando pela janela, a tigela de cereal na mão, vejo que já se formaram estalactites de gelo no telhado de casa. Mas hoje faz sol, e já derretem, pingando freneticamente.

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