Eu disse no último post que, depois de alguns meses, enfim havia motivo para retornar ao blog, com a chegada do nosso E-Cas. Poucos dias depois, encontro outro motivo para voltar, apenas que esse muito mais negativo, e inesperado.
Não tem a ver diretamente com a imigração. Tem a ver sim com a maior decepção que tive até hoje com o Estado québecois. Postarei aqui um texto que já havia postado em outro lugar:
No Brasil, sofremos com inúmeras dificuldades, estruturais e culturais, na hora de conseguir mobilizar setores da sociedade, engajá-los politicamente e sair as ruas para uma das tantas causas que seriam justas entre nós. Em alguns lugares, porém, alguma faísca, fantástica e ao mesmo tempo delicada, parece despertar um povo, e esta mistura de ostracismo, com comodismo, com medo, tão reinante, tão absoluta, enfim cai por terra. A tão necessária participação política, o tão necessário engajamento em causas sociais tão importantes quanto o acesso à educação, e que são a base para que uma democracia que se pretende como tal funcione, enfim acontecem.
Foi o que aconteceu ao longo dos últimos meses no Québec. Ameaçados de sofrerem um aumento de mais de 80% nas taxas universitárias que já tanto endividam os estudantes québecois (e canadenses, como um todo), os estudantes foram para as ruas. Não apenas uma, mas várias vezes. As manifestações chegaram na casa das centenas de milhares. E os estudantes entraram em greve, e assim estão já há meses. Querem negociar um aumento de uma taxa que, nós brasileiros bem sabemos, sequer deveria existir. A educação, e isto está na Declaração de Direitos Humanos da ONU, é um direito de todos.
E então um certo Sr. Charest resolve que a melhor maneira de se lidar com um momento histórico de efervescência social é lançar uma tal lei especial 78. Para coibir as manifestações e prever multas e punições para os envolvidos. Aliás, onde se lê especial, por favor, entendam lei marcial. Onde se lê lei, entendam uma grande bota, pisando sobre uma das poucas tentativas, dessas que aflorescem de vez em quando, de fazer com que uma democracia seja, de fato, uma democracia.
Fico imaginando se essas mesmas pessoas, esses 68 que votaram a favor da lei, aprovada ontem pelo parlamento, também pisam nas flores que nascem pelas ruas enquanto caminham.
http://www.ledevoir.com/politique/quebec/350413/titre
http://www.ledevoir.com/politique/quebec/350475/loi-78-abus-de-pouvoir
A esses 68, como futuro eleitor no Québec, faço eco a tantos estudantes que espalham sua manifestação pelas redes sociais: On se souviendra.
(*) A lei 78 prevê que qualquer manifestação, ou aglomeração de pessoas de 50 pessoas em diante, deverá ser previamente anunciada a polícia, anunciando tanto trajetória quanto duração. Manifestações espontâneas estão proibidas, e sujeitas a altas multas. Incitações a tais manifestações também estão sujeitas a multas, e isso inclui alusões ao movimento estudantil através de twitter e redes sociais em geral.

